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França investiga fraudes
científicas
Desvio ético e motivações econômicas são o foco da questão
Plágio, manipulação e falsificação de dados ameaçam credibilidade da
Ciência e têm sido descobertos ao acaso. Um tabu científico, o da
própria lisura da ciência, começou a ser investigado na última semana
por especialistas na França.
A pedido do Ministério do Ensino Superior e da Pesquisa do governo de
Nicolas Sarkozy, uma comissão liderada por Jean-Pierre Alix, executivo
do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) e encarregado de
relações Ciência-Sociedade da instituição, investigará fraudes cometidas
por pesquisadores.
O objetivo é conter um fenômeno crescente como o próprio orçamento dos
estabelecimentos de ensino dos países desenvolvidos: o desvio ético. O
consenso é que o plágio, a manipulação e a falsificação de dados e
estatísticas podem estar contagiando grande parte das pesquisas
publicadas em todo o mundo.
A iniciativa da França não é inédita e não revela um número especial de
fraudes no país, mas atrai mais atenção. A Missão sobre Integridade
Científica, da qual Alix foi incumbido, põe o país na vanguarda das
nações preocupadas com o rumo da pesquisa científica, onde já estão
Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Estados Unidos e Japão.
O tamanho do buraco representado pelas fraudes é totalmente
desconhecido. Pesquisas realizadas com softwares especializados na
comparação do conteúdo de textos, usando como parâmetro a biblioteca
virtual de saúde Medline indicaram que, de 7 milhões de artigos
comparados, 70 mil (ou 1%) apresentavam alto grau de semelhança.
Entretanto, há dois anos uma pesquisa realizada pela revista
especializada Nature com 8 mil cientistas, a partir de um questionário
anônimo, apontou que 33% tinham se valido de práticas reprováveis nos
três anos anteriores à enquete.
Entre as respostas estavam a impressionante soma de 15,5% de cientistas
que manipularam dados de acordo com interesses de seus patrocinadores.
Falhas como omissão de resultados contraditórios foram indicados por 6%
dos pesquisadores, enquanto a falsificação de dados e o roubo de idéias
envolviam, respectivamente, 0,3% e 1,4% da comunidade estudada.
Em uma das mais recentes e marcantes, desmascarada em 2004, o biólogo
sul-coreano Hwang Woo-suk chegou a anunciar a primeira clonagem humana -
logo depois de desmentida, porque se valia de estatísticas e dados
maquiados. Seu erro foi crer na impunidade.
Ao contrário da imensa maioria das fraudes praticadas, os casos célebres
acabam desvendados pela ação de pesquisadores. "O governo francês não é
o único interessado em criar um selo de boas práticas científicas”,
disse Alix ao Estado. “Descobrimos que não havia um sistema formal de
apuração e que era preciso criar mecanismos de proteção da qualidade da
pesquisa”.
Na França, o Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa em Saúde (Inserm)
e o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) já têm núcleos de
controle de fraudes.
O primeiro passo do relatório, diz Alix, é inventariar os erros para,
então, encontrar os caminhos para coibi-los. “Há uma zona cinzenta que
concentra os resultados de pesquisas parciais, incompletas e, portanto,
falsas, que precisa ser esclarecida”.
O que se sabe até o momento é que áreas como a Química, a Física e parte
da Biologia estão mais sujeitas, enquanto a Matemática parece imune. É
preciso apurar ainda o peso dos plágios e o tamanho da contaminação nas
Ciências Humanas. "De toda forma, é um problema que existe, é crescente
e prejudica a imagem pública da pesquisa científica”, conclui Alix.
PRESSÕES - A preocupação foi despertada pela pressão internacional. Em
2007, dois grandes congressos sobre o tema forma realizados no Japão e
em Portugal.
Uma equipe do Fórum Mundial da Ciência da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) também estudou a fundo as causas e
implicações das fraudes científicas. O diagnóstico foi assustador.
Segundo os autores do relatório, Frédéric Sgard e Stefan Michalowski, a
pressão severa e a competição por resultados e por financiamento, o
temor por seus cargos e até a falta de preparo para o tema estão entre
as razões que levam os pesquisadores a fraudar trabalhos.
Somam-se Elementos psicológicos, como o estresse da carreira, motivações
econômicas, como o interesse dos grupos financiadores das pesquisas - na
indústria farmacêutica, por exemplo -, organizacionais, como a falta de
pessoal, e finalmente éticos.
Enquanto Alix inicia a elaboração de seu dossiê, Sgard e Michalowski têm
indicações de caminhos a seguir. O primeiro deles é a criação de
sistemas nacionais formais para gerenciamento de acusações de fraudes,
seja uma instituição - como os Danish Committees on Scientific
Dishonesty, na Dinamarca -, seja um departamento especializado na
análise e julgamento de fraudes nas universidades e nos órgãos
financiadores de pesquisa.
Eles seriam baseados em códigos legais ou manuais de conduta, que
orientariam julgamentos justos, com amplo direito de defesa, mas também
com mecanismos de punição - que poderiam chegar à perda do título
acadêmico.
“O problema é que a denúncia das fraudes científicas ainda é feita caso
a caso e sem uma política de tratamento igualitário para os suspeitos”,
explica Sgard.
Para o especialista, uns sistemas mistos, que envolvam comissões de
estudo de irregularidades dentro das universidades, e os órgãos
financiadores - no caso do Brasil, o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) -, são o caminho
mais plausível para aumentar a fiscalização sobre a produção dos
cientistas. “Hoje as fraudes são descobertas de forma fortuita”, admite
Sgard.
Fonte: O Estado de São Paulo
Especial para O NEÓFITO
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